Santa inveja de um
jovem tão jovem que consegue escrever isto...
Evoé,
Casimiro
de Abreu
1-Este poema exige
ser lido ao som de Carlos Gomes... Faça esta experiência!
2- Leia...não o
analise...não o mate com a razão
I
Minh'alma
é triste como a rola aflita
Que o
bosque acorda desde o alvor da aurora,
E em
doce arrulo que o soluço imita
O morto
esposo gemedora chora.
E, como
a rôla que perdeu o esposo,
Minh'alma
chora as ilusões perdidas,
E no
seu livro de fanado gozo
Relê as
folhas que já foram lidas.
E como
notas de chorosa endeixa
Seu
pobre canto com a dor desmaia,
E seus
gemidos são iguais à queixa
Que a
vaga solta quando beija a praia.
Como a
criança que banhada em prantos
Procura
o brinco que levou-lhe o rio,
Minha'alma
quer ressuscitar nos cantos
Um só
dos lírios que murchou o estio.
Dizem
que há, gozos nas mundanas galas,
Mas eu
não sei em que o prazer consiste.
— Ou só
no campo, ou no rumor das salas,
Não sei
porque — mas a minh'alma é triste!
II
Minh'alma
é triste como a voz do sino
Carpindo
o morto sobre a laje fria;
E doce
e grave qual no templo um hino,
Ou como
a prece ao desmaiar do dia.
Se
passa um bote com as velas soltas,
Minh'ahna
o segue n'amplidão dos mares;
E
longas horas acompanha as voltas
Das
andorinhas recortando os ares.
Às
vezes, louca, num cismar perdida,
Minh'alma
triste vai vagando à toa,
Bem
como a folha que do sul batida
Bóia
nas águas de gentil lagoa!
E como
a rola que em sentida queixa
O
bosque acorda desde o albor da aurora,
Minha'ahna
em notas de chorosa endeixa
Lamenta
os sonhos que já tive outrora.
Dizem
que há gozos no correr dos anos!...
Só eu
não sei em que o prazer consiste.
— Pobre
ludíbrio de cruéis enganos,
Perdi os risos — a minh'alma é triste!
Perdi os risos — a minh'alma é triste!
III
Minh'alma
é triste como a flor que morre
Pendida
à beira do riacho ingrato;
Nem
beijos dá-lhe a viração que corre,
Nem
doce canto o sabiá do mato!
E como
a flor que solitária pende
Sem ter
carícias no voar da brisa,
Minh'alma
murcha, mas ninguém entende
Que a
pobrezinha só de amor precisa!
Amei
outrora com amor bem santo
Os
negros olhos de gentil donzela,
Mas
dessa fronte de sublime encanto
Outro
tirou a virginal capela.
Oh!
quantas vezes a prendi nos braços!
Que o
diga e fale o laranjal florido!
Se mão
de ferro espedaçou dois laços
Ambos
choramos mas num só gemido!
Dizem
que há gozos no viver d'amores,
Só eu
não sei em que o prazer consiste!
— Eu
vejo o mundo na estação das flores
Tudo
sorri — mas a minh'alma é triste!
IV
Minh'alma
é triste como o grito agudo
Das
arapongas no sertão deserto;
E como
o nauta sobre o mar sanhudo,
Longe
da praia que julgou tão perto!
A
mocidade no sonhar florida
Em mim
foi beijo de lasciva virgem:
—
Pulava o sangue e me fervia a vida,
Ardendo
a fronte em bacanal vertigem.
De
tanto fogo tinha a mente cheia!...
No afã
da glória me atirei com ânsia...
E,
perto ou longe, quis beijar a s'reia
Que em
doce canto me atraiu na infância.
Ai!
loucos sonhos de mancebo ardente!
Esp'ranças
altas... Ei-las já tão rasas!...
— Pombo
selvagem, quis voar contente...
Feriu-me
a bala no bater das asas!
Dizem
que há gozos no correr da vida...
Só eu
não sei em que o prazer consiste!
— No
amor, na glória, na mundana lida,
Foram-se
as flores — a minh'alma é triste!
Evoé, Casimiro de Abreu
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I
Minh'alma
é triste como a rola aflita
Que o
bosque acorda desde o alvor da aurora,
E em
doce arrulo que o soluço imita
O morto
esposo gemedora chora.
E, como
a rôla que perdeu o esposo,
Minh'alma
chora as ilusões perdidas,
E no
seu livro de fanado gozo
Relê as
folhas que já foram lidas.
E como
notas de chorosa endeixa
Seu
pobre canto com a dor desmaia,
E seus
gemidos são iguais à queixa
Que a
vaga solta quando beija a praia.
Como a
criança que banhada em prantos
Procura
o brinco que levou-lhe o rio,
Minha'alma
quer ressuscitar nos cantos
Um só
dos lírios que murchou o estio.
Dizem
que há, gozos nas mundanas galas,
Mas eu
não sei em que o prazer consiste.
— Ou só
no campo, ou no rumor das salas,
Não sei
porque — mas a minh'alma é triste!
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II
Minh'alma
é triste como a voz do sino
Carpindo
o morto sobre a laje fria;
E doce
e grave qual no templo um hino,
Ou como
a prece ao desmaiar do dia.
Se
passa um bote com as velas soltas,
Minh'ahna
o segue n'amplidão dos mares;
E
longas horas acompanha as voltas
Das
andorinhas recortando os ares.
Às
vezes, louca, num cismar perdida,
Minh'alma
triste vai vagando à toa,
Bem
como a folha que do sul batida
Bóia
nas águas de gentil lagoa!
E como
a rola que em sentida queixa
O
bosque acorda desde o albor da aurora,
Minha'ahna
em notas de chorosa endeixa
Lamenta
os sonhos que já tive outrora.
Dizem
que há gozos no correr dos anos!...
Só eu
não sei em que o prazer consiste.
— Pobre
ludíbrio de cruéis enganos,
Perdi os risos — a minh'alma é triste!
Perdi os risos — a minh'alma é triste!
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III
Minh'alma
é triste como a flor que morre
Pendida
à beira do riacho ingrato;
Nem
beijos dá-lhe a viração que corre,
Nem
doce canto o sabiá do mato!
E como
a flor que solitária pende
Sem ter
carícias no voar da brisa,
Minh'alma
murcha, mas ninguém entende
Que a
pobrezinha só de amor precisa!
Amei
outrora com amor bem santo
Os
negros olhos de gentil donzela,
Mas
dessa fronte de sublime encanto
Outro
tirou a virginal capela.
Oh!
quantas vezes a prendi nos braços!
Que o
diga e fale o laranjal florido!
Se mão
de ferro espedaçou dois laços
Ambos
choramos mas num só gemido!
Dizem
que há gozos no viver d'amores,
Só eu
não sei em que o prazer consiste!
— Eu
vejo o mundo na estação das flores
Tudo
sorri — mas a minh'alma é triste!
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IV
Minh'alma
é triste como o grito agudo
Das
arapongas no sertão deserto;
E como
o nauta sobre o mar sanhudo,
Longe
da praia que julgou tão perto!
A
mocidade no sonhar florida
Em mim
foi beijo de lasciva virgem:
—
Pulava o sangue e me fervia a vida,
Ardendo
a fronte em bacanal vertigem.
De
tanto fogo tinha a mente cheia!...
No afã
da glória me atirei com ânsia...
E,
perto ou longe, quis beijar a s'reia
Que em
doce canto me atraiu na infância.
Ai!
loucos sonhos de mancebo ardente!
Esp'ranças
altas... Ei-las já tão rasas!...
— Pombo
selvagem, quis voar contente...
Feriu-me
a bala no bater das asas!
Dizem
que há gozos no correr da vida...
Só eu
não sei em que o prazer consiste!
— No
amor, na glória, na mundana lida,
Foram-se
as flores — a minh'alma é triste!
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